segunda-feira, 19 de maio de 2014

Lá e lô

Ele ousava dançar, com os pés levemente graciosos.
A carregava,
A conduzia pelo ar da maresia,
E no assoalho do navio
Ia sendo emitido o som dos passos
Que o mar, batendo no casco, tentava abafar a toda hora.
Já passava do meio-dia,
Mas ainda estava escuro.
O navio era levado por um capitão sem cabeça.
Todos no convés olhavam a dança e achavam chique.
O homem era um dançarino nato e a mulher sabia bem seguir seus passos.
Ao final da música, um beijo.
Ele, apaixonado.
Ela, com os lábios secos,
Surpresos,
Imóveis.
E na cabeça dele, a maior declaração de amor já feita.
Ao se retirarem da pista, ele a levou para a proa.
Abriu os braços dela e se sentiu como num filme.
O vento passando pelos seus cabelos
E ele sentindo o perfume mortal do seu amor.
Segurando as mãos dela, sentiu o frio de seu corpo,
E mais uma vez, sem conseguir se segurar, a beijou.
Terminada a viagem, poucas horas depois,
Chegou com ela à terra firme.
Seguro do chão, agora tinha também abraços apertados.
Novos passos de dança pela areia.
Marcas do rastro se perpetuando
E sendo apagados logo em seguida
Pela crueldade severa do mar.
Ele puxou-a para um mergulho na água.
Ela, ainda de vestido,
E ele, amando loucamente, perdido.
Olhar sincero seguido de choro.
Ali estava o fim de toda a angústia.
Segurou as mãos frias.
Mais um beijo na boca,
E era tempo de se despedir.
Soltou o formoso corpo no mar,
Doendo em seu coração o partir e o partido.
O corpo dela foi boiando suavemente,
O vestido de renda flutuando feito mágica.
Ali, ele viu.
O mar se acabou,
E o amor, se afogou.