quinta-feira, 10 de abril de 2014

Compreensão

     Enquanto eu estava no lugar que deveria, me jogaram textos, como fazem e sempre farão. E começa a leitura. É frase pra lá, conceito pra cá, citação e paixão... Hum... É perda de concentração. Concentro de novo e resumo com tópicos. Puxo setas e realço pontos principais. Sim, acho que entendi. Até minha doutora em compreensão me chegar com o mesmo texto, lendo-o, parágrafo por parágrafo, e tudo perder o sentido. De repente, a compreensão virou confusão. Virou entropia, desconcentração e quem dizia que entendia estava em meditação. Eu não via, não entendia, não ouvia, não percebia que o texto era isso tudo. Era isso tudo mesmo? Não sei... Afinal, que danado de discurso é esse que ela está falando? De que me vale se existe a análise francesa? Por mim, sei que ainda sou brasileiro e isso não há de mudar por ainda algumas décadas. Afinal, a gente pensa a mesma coisa ou roubamos as coisas um dos outros? E, antes de pensar sobre isso, realmente importa? A verdade é que queremos ser donos das ideias pra sermos importantes, mas não se vê a importância que já existe ao pensar e repassar uma ideia a toda a sociedade. Passado isso, tudo bem. Já reclamei que não entendi, já esqueci de tudo o que se passava. Numa volta pra casa mais longa que o habitual, voltei a refletir sobre a compreensão em si, e descobri que talvez eu já tivesse compreendido. Eis que, numa virada de esquina, avisto aquele rabo de cavalo dançando rápido em minha direção por trás de um vulto voluptuoso e misterioso. Até aí, nada de especial... mas atravessamos a rua no mesmo momento, e quando meus olhos, viajando em alguma esfera da minha mente, fitaram os dela, percebi uma obra de arte passando ao meu lado. Como se não bastasse, ela olha pra mim de volta e eu, mesmo que ainda estivesse a voar, percebi nos seus lábios um sorriso que poderia querer dizer tudo e nada. Que não poderia ser separado em tópicos e não poderia se realçar suas partes principais. Que não importava se ela era francesa, alemã, russa, ingles, judia, cristã ou siamesa. Como uma ideia, ela passou o seu sorriso por mim, e isso já foi o bastante, mesmo que eu nunca vá descobrir seu nome. O sorriso me levou além da compreensão e do que se pode compreender e me deu em troca a viagem de solidão do mesmo ser que sei que sou. E com tudo isso, se já achava que tinha me decidido, talvez eu deva voltar pra uma aula de compreensão de sorrisos.