quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Incompreendida

Ela entrou no banheiro aflita
Trancou a porta e a janela
Se encarou no espelho por horas
Viu a chuva descer como lágrimas no vidro
Como se fossem suas
Como se o vidro fosse sua própria face
E viu sua maquiagem borrar
Seu amor se esvair
Despiu-se e sentiu sua pele branca e macia
Cada centímetro de carne e cada arrepio
Cada fio de seus sedosos cabelos
E cada célula do seu corpo
Todas elas rejeitadas e humilhadas
Deslocadas e abandonadas
Como um impulso incontrolável, veio a raiva
E esta foi expressa no quebrar de um espelho
O corte na sua mão era maior que o rombo no coração
A dor, ainda mais profunda
Arriscaria dizer que era maior que o mundo
Eis que a incompreendida tomou uma decisão
Não queria mais viver essa vida
Decidiu que era melhor estar de partida
Do que viver na contramão
Selou seu destino ao encher sua banheira
Deitou e juntou forças para lá permanecer e ser forte
Assinou, lá no fundo, o seu contrato de morte