terça-feira, 26 de novembro de 2013

O corvo

Era uma madrugada de quinta sombria
Nem um único morto piava no silêncio da noite
Nem uma alma penada
Eis que, atordoado no meu quarto
Avisto um intruso rompendo a angústia do momento
De penas negras e olhos vermelhos, trazia notícias de morte
Era corvo, era cavaleiro da desesperança

Já desiludido de todos os amores
Perguntei pra aliviar meus temores
Se é que era assim que aconteceria
Queria deixar de maresia
O corvo, soberano, chegou pomposo
Repousou sobre a ponta do guarda-roupas
E disse:
 - Sou negro, sou forte! Sou cavaleiro da morte! Vim te mostrar que pro futuro não terás sorte. Me pergunta o que quiseres, desde que te conforte.
 - Viverei o resto da vida assim? Elas todas correrão sempre de mim e amargurarei uma solidão sem fim? - Perguntei.
 - Tua alma foi amaldiçoada pelo próprio Satanás! Se queres amor de volta, nunca terás. Nunca mais! Nunca mais! - Respondeu o corvo imponente.
E eu, desesperado e delinquente:
 - Por que é tão injusta a vida? Meus amores estão sempre de partida e meu coração, alma dividida.
 - Teu coração não é coisa que se faz. Estás num mundo de ilusão, odiado como o próprio Barrabás. A justiça que queres, nunca terás. Nunca mais! Nunca mais! - Disse o corvo.
E eu, pra descobrir minha sentença:
 - O amor que espero da vida posso algum dia ter? Pode um dia essa alma sofrida ver um amor acontecer?
 - Foste sentenciado vidas atrás. Tudo o que queres de amor nunca terás. O divino não volta atrás. Sofra, rapaz! Não terás nada disso. Nunca mais! Nunca mais!

E rompendo a tensa estática da conversa
O corvo bateu em retirada
Minha alma ficou pálida, desesperada
Fui à janela, gritei para ele voltar
Mas já estava entre as nuvens, sob o luar
E soltou um grito de suspiro tenaz
Sobre aquilo que nunca vou encontrar
Nunca serei digno de amar
Ou, se quer, capaz
Nunca mais! Nunca mais!